domingo, 4 de maio de 2014

A Grande Lição


Nós, os benfiquistas, estamos numa viagem que não queremos que nunca acabe. Vamos no banco de trás do carro do nosso pai, rumo à terra fantástica dos nossos avós, agarrados a um magnífico pacote de ruffles de presunto comprado depois de muita birra na estação de serviço. Não perguntamos nunca "pai, já chegámos?". Não dizemos nunca "pai, acelera, mais rápido". Queremos que o carro vá devagar e que não falhe nenhuma paragem que consideremos obrigatória.

No final desta época, em princípio, vão haver renovações de redpass. O clube vai ter novos associados. As assistências no estádio da Luz aumentarão entre 5 a 10 mil adeptos no início da próxima época. O benfiquismo vai estar no nível máximo da escala de benfiquismo o que fará com que muita gente comece a dizer "ninguém é mais benfiquista que eu".

O benfiquismo, dizem, não se mede. Mas mede. Eu escrevo este post para os meus amigos benfiquistas reflectirem sobre o que se passou nesta viagem, para que no futuro possamos melhorar o nosso benfiquismo e o nosso Benfica.

Não vale a pena recapitular o que se passou no final da época passada. Todos os benfiquistas o sabem, tim tim por tim tim. Toda a gente sabe o que disse e o que sentiu naquela altura. O nosso treinador foi posto em causa pela esmagadora maioria dos associados. Chamaram-lhe burro. Chamaram-lhe estúpido. Chamaram-lhe tudo. Pediram o Marco Silva, o Rui Vitória, o Bielsa e até houve alguns alucinados a pedir o Mancini para o seu lugar. Eu mantive-me mais ou menos calmo. Disse que aceitaria qualquer desfecho mas no final acabei por ficar contente com a continuidade de Jesus. Critiquei, isso sim, a forma como a nossa direcção olhou para o mercado de transferências. Estive de pé atrás com o Siqueira e com o Sílvio. Aplaudi a contratação do Cortez. Estive de pé atrás com a contratação do Fejsa, dos irmãos do Matic e do Markovic e com a contratação do Funes Mori. Achei que tanta gente nova num balneário destroçado não poderia dar bom resultado.

Já deu para perceber no que me enganei rotundamente. Não vou pedir desculpa pelo que escrevi, até porque dei muito de mim ao clube para compensar as poucas parolices que proferi da boca para fora. Não me interpretem mal. Estamos num país livre. Qualquer pessoa tem o direito de proferir as parolices que bem entender. No entanto, se forem benfiquistas activos, ganham muito mais legitimidade para dizer o que bem entenderem relativamente ao clube que ajudam a sustentar. É mais ou menos como um pai dar um raspanete a um filho que apanha às 5 da manhã no computador e depois o puto virar engenheiro formado no MIT uns anos depois. O pai pode, está na legitimidade, o filho fica um bocado chateado na altura mas apesar do raspanete não deixa de amar o pai. O Benfica também não nos deixa de amar.

E aqui está a primeira coisa que eu tenho para dizer aos meus amigos benfiquistas e aos futuros novos sócios do clube:

Para se ser um verdadeiro sócio do Benfica não basta comprar um kit na Repsol e dizer a plenos pulmões que se é muito benfiquista. Um sócio vai ao estádio ou ao pavilhão, consoante as modalidades que aprecia. Um sócio participa na vida do clube, vai às assembleias quando pode e está sempre informado sobre tudo o que rodeia o clube. 

É absolutamente ridículo, num universo de quase 300 mil sócios, que se tenham assistências a rondar os 30 mil espectadores ao longo de toda a época. Bastariam 10% dos sócios e 10% de adeptos do distrito de Lisboa irem à bola para o estádio encher todos os fins de semana. Não há dinheiro? Então como é que ele subitamente aparece no jogo do título? Viram-se pessoas a comprar bilhetes de não sócio para a central como quem compra leite no supermercado.

Fico um bocado lixado com os benfiquistas da festa. Por outro lado, adoro ver o estádio da Luz completamente cheio. Sendo benfiquista da festa ou benfiquista dos 30 mil, somos todos benfiquistas. É por isso que eu tenho uma utopia para o Benfica. Uma utopia na qual os benfiquistas da festa gostem tanto da festa que não possam viver sem ela. Um dia haverá fila em Julho para renovar o redpass em vez de fila em Maio para o Olhanense. Um dia o Benfica terá adeptos que gostem mesmo de futebol, de andebol, de hóquei, em vez de benfiquistas que gostem apenas das vitórias e dos confetis. Um dia os benfiquistas vão perceber a glória de uma bifana e de uma cerveja entre amigos antes do jogo, em vez da glória de umas festinhas no gato enquanto o stream do firstrow se engasga todo e não vos deixa ver o jogo.

Quando os benfiquistas gostarem mesmo de futebol provavelmente vão deixar de cantar nas bancadas "uma vergonha, vocês são uma vergonha" e vão passar a cantar "Benfica! Benfica! Benfica!". Este ano cantou-se nas nossas bancadas, no jogo contra o Gil Vicente, o primeiro cântico que mencionei. A "vergonha" deu em "verGOOOLO". Em 2007/08, quando ficámos em 4º lugar, cantou-se "Benfica! Benfica! Benfica!" depois do 3º golo da Académica do Domingos, na Luz. Que esquizofrenia é esta? O que fez as coisas mudar?  

Isto leva-me à segunda coisa que eu tenho para dizer aos meus amigos benfiquistas:

Não pensem que um cântico ou um impropério não magoa ou afecta os nossos técnicos ou jogadores. Lembrem-se das revoltas do Luisão ou do Cardozo contra o público da Luz. Há quem diga que eles nunca na vida podem responder a um adepto. Eu acho o contrário. Acho que têm toda a legitimidade para responder. Eu responderia. Não considero que isso seja desrespeitar o Benfica até porque um adepto que insulta o Luisão ou o Cardozo, para mim, não representa o Benfica nem tão pouco se dá ao respeito.

Não quero com isto dizer para em nenhuma ocasião criticarem a equipa ou treinador. Nada disso. Quero é que dentro do estádio toda a gente, qualquer que seja o resultado ou exibição, reme para o lado do Benfica, nem que a própria equipa ou treinador estejam a remar rumo ao precipício. Sabem onde se mostra mesmo, mas mesmo, a indignação? É numa assembleia. Fácil! Tão fácil. Basta ser-se sócio e ir lá votar. Não acham fácil? Eu acho. O nosso clube é democrático. Às vezes não parece muito lá com uns seguranças mais trombudos, mas é.

Esta época está a ser uma grande viagem. Qualquer que seja o desfecho das 3 finais, esta época já foi uma grande lição. Jesus deu a lição e os jogadores interpretaram como ninguém a matéria. Resta saber se a lição se estendeu aos adeptos ou se ficou só com a equipa. De mim falo. A mim chegou-me muita matéria que usarei no futuro. Obrigado, Jorge Jesus. Obrigado por tudo. 



10 comentários:

  1. Completamente de acordo. Gosto muito de ver o estádio cheio, mas, infelizmente, metade são os que chamo de paraquedistas.
    Também já disse mal de muita coisa, mas estou sempre presente, vou a jogos fora, pago quotas, cativos, etc..

    QUE A VIAGEM NÃO ACABE!

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    1. só te falta ir à roulote do Manelito bubeir uma granda buja!

      Abraço. Que a viagem acabe sem vomitar. Eu quando era puto não me aguentava e vomitava sempre :(

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    2. Bujas, já lá fui algumas vezes, há algum tempo. Foi lá que alguns de nós, bloggers conhecidos no Turquemenistão, nos conhecemos.
      Irei, com muito gosto, para te mandar uma buja.

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    3. agora manelita-se em Leiria, no Jamor ou para o ano. Dragão não vou

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  2. Percebo o teu ponto de vista mas permite-me discordar um pouco em relação ao apoio dos benfiquistas esta época. Muito se tem falado, por essa blogosfera fora, sobre o fraco apoio dos adeptos durante toda a primeira volta do campeonato. Bloggers como o JG do RedPass ou o Ricardo do Ontem, não têm sido parcos em críticas aos adeptos que só apareceram nos últimos jogos. Esta época fui um desses adeptos e, como tal, venho aqui sair um pouco em minha própria defesa.

    Esta época tem sido absolutamente fantástica, inédita até, mas é preciso que não nos esqueçamos de como foram as últimas três. Faz agora mais ou menos um ano que eu, em pleno Jamor, jurei a mim mesmo que se JJ ficasse no Benfica eu na próxima época não poria os pés na Luz o ano inteiro. Falhei a promessa, acabei por ir sete vezes à catedral, todas elas já em 2014. Tenho sido um acérrimo crítico de Jesus, não me esqueço das suas teimosias, embirrações, equívocos, adaptações constantes, do Melgarejo, Emerson, Capdevilla, Miguel Rosa, Roderick Miranda, Menezes, Éder Luís, Jara, Rodrigo Mora, Funes Mori, etc, etc.

    Mas este ano Jesus mudou. Mudou para melhor, mais refinado, menos teimoso (lembras-te que ele em Julho queria emprestar outra vez Oblak quando toda a gente via que estava ali o melhor guarda-redes do SLB?) e muito mais pragmático. Pena que só tenha mudado cinco anos depois. A somar a isto temos a lesão de Cardozo (outro caso mal gerido por LFV mas também por Jesus), o que implicou uma alteração substancial no esquema ofensivo da equipa e, claro, a miserável época do FCP, talvez uma das piores dos últimos trinta anos. Mas ainda assim, esta época começou mal, mais uma vez e para não variar. Pontos perdidos, fracas exibições, golos sofridos de bola parada a papel químico uns dos outros, um guarda-redes que teimava em não dar confiança à defesa, avançados desinspirados, etc. Até que Eusébio foi chamado lá para Cima e aquele jogo com o Porto marcou, na minha opinião, a viragem do campeonato. Foi como se se tivesse feito um clique nas cabeças daquela gente. Com todas estas variáveis, a coisa recompôs-se na 2ª volta e, tudo somado, tendo o Benfica um excelente plantel, só podia resultar numa época, se não hegemónica, pelo menos vitoriosa em termos de campeonato nacional.

    Obrigado, Jorge Jesus, obrigado, LFV, obrigado, jogadores do SLB, obrigado, águia Vitória, obrigado a todos os sócios e adeptos, aos que nunca falham um jogo, aos que falham assim, assim e aos que nunca põem os cotos no estádio mas que ficam a vibrar e a torcer que nem loucos através de um ecrã.

    Fé na buja!

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    1. De acordo com parte desta visão. No entanto, nunca desisti de ir. Fui sempre. Até quando o Quique cá estava, nunca falhei. Mas compreendo o que dizes.

      O que me custa é ver que, quando um jogo acaba e o resultado não foi bom, eu saio arrasado do estádio, e lá fora estão todos a rir, tudo divertido na mesma, o resultado foi só um pormenor. Até percebo que o futebol seja um motivo para reunião e divertimento, mas possa, é importante para mim e não é, sem dúvida alguma, para a maioria. E quando digo maioria, digo talvez na ordem dos 70%, para não dizer mais.

      As pessoas vão ao futebol como um entretenimento, às vezes nem vão ver o seu clube. OK. Mas quando ali estou, sinto que mereço sofrer e festejar com os meus. E os meus, são poucos.

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    2. seus mariconças.

      É pá eu acho que o primeiro caminho é não arranjar ódios de estimação no nosso clube. Não ir à bola porque joga A, B ou C ou porque Y treina o nosso clube não é uma boa premissa. Imagina que o Benfica desce de divisão um dia. Deixavas de apoiar o clube? Apoiar o clube é diferente de apoiar o treinador ou um jogador em concreto. O Benfica está lá na mesma, quer com o José Soares ou Garay a central. É o mesmo clube.

      Por adeptos pensarem dessa forma é que me lembro da Luz com 10 mil contra o Campomaiorense naqueles anos de desgraça...

      Eu acho que não faz sentido ser-se sócio sem se ser militante do clube. Claro que para o Vieira e para as finanças é óptimo ter centenas de milhares de sócios a meter os 12€ todos os meses na conta do clube. Na minha óptica, ser-se sócio sem ir ao estádio/pavilhão não faz sentido. Estás a entregar 12€ todos os meses a uma entidade com a qual não tens ligações. Estabelecer ligação com o Benfica é ir ao estádio, não basta ver os jogos na televisão e discuti-los na internet. Isto é o meu ponto de vista. Posso estar enganado e respeito outras opiniões.

      POC, há tanta variedade de adepto que não dá para generalizar dessa forma. Há o gajo que vem de longe em modo festa com o pessoal da aldeia. Há o gajo que tem uma vida fodida, problemas em casa, que tem o Benfica como escape e que vai fazer a viagem de regresso fodido se não levar a vitória. Há o gajo que vai só pela cerveja da roulote, que apanhou convite e nem o 11 titular sabe. Há o puto de 13 anos que diz "o importante é participar" que leva nos cornos no intervalo da escola... Depois há eu, tu, a nossa malta, etc...

      Escusado será dizer que fora desta conversa estão os (grandes) benfiquistas que não podem mesmo ir por motivos de guito.

      Escusado será dizer que não belisco o teu benfiquismo, mnlopes, tenho-te em grande conta (MESMO APESAR DE NÃO GOSTARES DO JESUS "/&"%R$#&#$"!$/&#"$!"/)





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    3. Os sócios emigrantes que pagam os 144€ por época sem porem lá os pés são em termos de Benfiquismo equiparáveis aqueles que em Portugal são Red Pass, ou um bocado inferiores?
      Compreendo perfeitamente o mnlopes, eu até aderi à Benfica TV no início da época e continuei a pagar as quotas mas depois do empate com o Arouca ou o Belenenses, não me lembro bem, cancelei o débito directo e a Benfica TV e disse que só pagava as quotas quando fossemos campeões.
      Felizmente foi este ano e foram "só" 96€, se fosse para o ano era uma porradona de dinheiro.
      Acho que para o ano vamos aumentar o número de red passes e de pessoas que vão ao estádio sempre e não têm red pass. Só não sei é se a maioria vai cortar a Benfica TV no verão ou manter activa.
      Forte abraço para todos

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  3. Eu vou ao estádio sempre que posso (família oblige...). Sou sócio sem red pass, com benfica tv, mas estive presente no estádio na grande maioria dos jogos da época. Infelizmente queria ir a Turim e talvez não possa, porque só há cerca de 9.000 bilhetes e quando chegar a minha vez, depois dos Fundadores, Red Pass, etc., já não deverá haver bilhete para mim. Identifico-me com tudo o que disseste, mas nesta altura sinto-me tratado como sócio de 2ª.

    Abraço,
    Rui Cunha

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    1. é lixada a tua situação, Rui. Eu gostava de poder ir a Turim mas não posso. Não posso meter férias e é muito guito mesmo por 1 jogo apenas. Essa distinção é normal que aconteça, acho que a principal revolta devia ser para com a UEFA que reservou para si mais de 20mil ingressos. Os adeptos do Benfica e Sevilha levam apenas com 25% da lotação do estádio cada um.

      Abraço!

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