terça-feira, 18 de março de 2014

Pontapé Canhão Nº4 - Branco


Branco

 (não dá para ler o nome do jogador porque ele se chama Branco. tcharaaaannnn)

“Ah e tal, o ‘Ai Vale Bujas?’ só fala bem do Benfica, são uns anti-Porto e anti-Sporting, nem falam em bujas de ex/actuais jogadores dos outros grandes, é uma braaaagooonha, rua!”. Isto podia muito bem ser uma queixa de um qualquer utilizador do nosso blog, o que felizmente ainda não aconteceu. Mas, para precaver algo do género, vamos desta feita falar de uma buja temível, das mais temíveis que passaram pelas Antas e pelo nosso campeonato.  Estão a ver como somos boas pessoas? Temos o nosso clube mas, acima de tudo, gostamos é de futebol! Anti-isto e anti-aquilo são outros quinhentos. (“Txi lá estão eles a falar em quinhentos, etc etc”.)

Se eu vos falar de Cláudio Ibrahim Vaz Leal aposto que quase nenhum de vocês saberá de quem falo. Mas se falar em “Branco” provavelmente a geração mais antiga que segue o nosso blog irá imediatamente reconhecer o jogador.

Este defesa esquerdo brasileiro, natural de Begé, começou aos 19 anos a pontificar no “seu” Fluminense, numa defesa comandada por Duílio (que viria para o Sporting em 1985 e teria passagens por Estrela da Amadora, Ovarense e Portimonense) e Ricardo Gomes (que veio para o Benfica em 1988). Num curto espaço de tempo, Branco começa a destacar-se com o seu pontapé esquerdo bastante potente e colocado, motivos mais do que suficientes para conquistar a lateral esquerda do escrete. Télé Santana convoca-o para o seu primeiro Mundial (86, no México), onde se estreia frente à Espanha (vitória por 1-0). No Fluminense conquista um campeonato brasileiro e três campeonatos cariocas.


Após quatro épocas de bom nível, transfere-se para Itália, mais precisamente para o Brescia, um clube bastante modesto para a sua qualidade. Fica duas épocas pelo clube italiano, não tendo grande sucesso e onde se ainda se cruza com o histórico guarda-redes italiano Marchegiani, antes de se transferir para o Porto.


Em Portugal passa apenas três épocas, mas foram suficientes para demonstrar a sua qualidade enquanto exímio marcador de livres, dividindo quase todas as bolas paradas com outro dos pontapés-canhão da equipa azul e branca, Geraldão. Num plantel recheado de glórias do clube (João Pinto, Vítor Baía, Aloísio, André, Domingos, Kostadinov, Jaime Magalhães), 80 jogos e 12 golos depois, Branco leva consigo no bolso uma supertaça e um campeonato, antes de nova aventura no Calcio, desta vez para representar o Génova. Ainda hoje Branco é visto com saudade pelos adeptos do FC Porto que o consideram o melhor lateral esquerdo de sempre a actuar pelos azuis e brancos. Deixou saudades.




Em Génova passa outras três épocas, onde passeia a sua classe, convivendo mais uma vez com nomes históricos do futebol mundial (Panucci, Eranio, Skurhravy, Tacconi, John Van’t Schip, Padovano, Dobrovolski), mas a nível colectivo os títulos não apareciam (apesar do 4º lugar em 91), talvez sendo este um dos factores que o levou a abandonar o futebol europeu tão cedo (1993). Nesta nova passagem por Itália contribuiu com 10 golos em 79 jogos.


No seu regresso ao Brasil não assentou arraiais por mais do que uma época no mesmo clube – Grémio (onde conquista um campeonato gaúcho), Fluminense, Corinthians, Flamengo e Internacional. Tudo isto em duas épocas e meia. É nesta troca constante de clubes que, de repente, aparece o Middlesbrough todo cheio de “ai ui temos dinheiro vamos aqui montar uma equipa cheia de craques do futebol mundial”.

 O brasileiro aceita o convite e passa duas épocas na Premier League, partilhando balneário com consagrados como Juninho Paulista, Emerson (ex-Belenenses e FCP), Ravanelli (cabelinho grisalho), Nick Barmby, Robbie Mustoe , Mikkel Beck, Fjortoft e o actual guarda-redes suplente do Chelsea, Mark Schwarzer. No entanto a experiência corre mal (1ª época terminam em 12º e 2ª época descem mesmo de divisão) e apenas nove jogos depois, Branco volta para o Brasil, para representar o modesto Mogi Mirim. Ainda tem mais uma passagem pelo exterior (New York Red Bulls), antes de terminar a carreira no seu clube de sempre, o Fluminense.

Mas calma! Se pensam que a carreira deste enormíssimo defesa esquerdo se resume a isto estão enganados! Não podia deixar de falar na Copa América que conquistou (1989), nem dos três campeonatos do Mundo em que esteve presente : México 86 (quartos de final), Itália 90 (oitavos de final) e, claro está, no melhor Mundial de sempre, USA 94 (campeão do Mundo).
Branco foi um jogador influente nos três Mundiais, sendo titular indiscutível em todos os jogos do Escrete nos Mundiais de 86 e 90 e fazendo três jogos em 94. É precisamente no seu último Mundial que consegue atingir o ponto mais alto da sua carreira, no jogo contra a Holanda (quartos de final). Aproveitando o castigo a Leonardo, expulso frente aos Estados Unidos no jogo anterior, Branco assume a titularidade para ser decisivo no apuramento para as meias-finais, ao conquistar o livre, que ele próprio cobraria, para um golo inesquecível. Toda a gente se lembra do Romário a desviar-se da bola, com esta a anichar-se junto ao poste esquerdo da baliza do gigante Ed De Goey. 3-2 e o Brasil carimbava passaporte para as meias-finais, onde iria eliminar a Suécia e, na final, derrotaria a Itália na final através de penaltis (mítica a buja, do enorme Roberto Baggio, por cima da trave).


Em 2012 deu início à sua aventura como treinador,  no Figueirense. Passou também pelo Sobradinho e Guarani. Está actualmente desempregado.
Mito urbano: num jogo da selecção brasileira a contar para uma qualquer competição, ou apuramento ou particular, Branco foi à linha para tentar o cruzamento. O problema é que o cruzamento acabou por sair remate e acertou em cheio num repórter fotográfico. Resultado: o repórter perdeu 80% da visão de uma das vistas, houve quem dissesse que até teria ficado cego. Fiz várias pesquisas e não encontrei o referido vídeo, mas recordo-me bem dessa história e talvez até das imagens a dar no Telejornal. Se não quiserem acreditar não acreditem, eu é que sei! Mas “ai ui sempre na tanga”, vejam então a buja com que o jogador escocês MacLeod levou, em pleno Itália 90: 

12 comentários:

  1. Esse mito urbano é verdade. Foi no Mundial de 94 e tenho quase a certeza que foi no jogo contra a holanda. Não sei de facto se o fotografo perdeu a visao mas que ficou internado tenho a certeza que sim.

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  2. Pronto! Está confirmado! Já são duas pessoas a dizer que é verdade! Obrigado, Paunchy! Se souberem de mais histórias sobre o Branco, partilhem com a malta!

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  3. 24 anos depois e ainda lhe deve estar a doer a cabeça...

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  4. Grande posta! Não há nada como um blog que saiba apreciar o futebol vintage que houve em Portugal. Só uma notinha (mesmo à marrão, a completar o que o outro diz só para o lixar à frente do professor): no Mundial Itália 90 o Branco foi um dos brasileiros que bebeu da famosa garrafa argentina... Há um lance onde ele até quase que cai... (https://www.youtube.com/watch?v=v_9-k-TTPyk). E em 94 marca um dos penalties na final e muito bem.

    Cumprimentos cá de casa

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    1. muito obrigado, C e M! Vós sois E-N-O-R-M-E-S.

      Não conhecia essa história da garrafa! Fui pesquisar e encontrei isto para quem estiver interessado: http://www.theguardian.com/football/2005/jan/21/newsstory.sport5

      É pá brutal...

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  5. Finalmente encontro depoimentos sobre a buja que acertou em cheio no repórter... vi um documentário sobre o Branco há uns bons 15 anos que dissecava essa mesma buja - "buja do caralho", terá narrado o então Jovem Adulto do Bigode - mas o facto de desde então não ter encontrado nenhum relato dessa ocorrência - nem sequer alguém que a recordasse - já me estava a fazer colocar em causa a veracidade de tal memória.
    Confirmo, sim, que não se trata de mito urbano, mas ao contrário do que outro comentador refere, não aconteceu no WC1994... é anterior, num jogo de relevância inferior que infelizmente não sei precisar. O que é pena, pois passe o sadismo inerente teria sido a cereja no topo de um Mundial que viu de tudo um pouco, desde um mexicano a partir uma baliza pelo simples facto de se ter segurado nas redes, até um árabe passar por meia equipa da Bélgica (fácil) e meter um golo na baliza de Saint Michel (impossível).

    Sobre Branco: tiro o meu chapéu ao autor por esta mais do que justa homenagem. Urge evangelizar um mundo povoado por almas indigentes que acreditam que a buja vinda da lateral esquerda foi parida por essoutro (nobre) bujardeiro chamado Roberto Carlos. Hereges! Ainda Roberto Carlos mandava bujas na praia com bolas insufláveis e já Branco aplicava paralíticas com cautchu!
    Veja-se o McLeod (que felizmente não é Duncan, caso contrário "there can be only one" e Branco ter-lhe-ia naturalmente arrancado a marmita) - o que impressiona não é a buja em si, não é a pontaria descarada que Branco faz ao espantalho (o replay aos 34 segundos demonstra à saciedade que a bola teria passado no mínimo 20km ao largo da baliza, não havendo qualquer justificação para desferir uma buja naquela direcção além do sadismo de que só um bujardeiro destes pode desfrutar).
    O que impressiona é que, mesmo depois de ressaltar na cara do jogador, a bola é projectada de tal forma que por pouco não terá abandonado o espaço aéreo italiano. Ela aterra no meio campo defensivo do Brasil! Depois de na cara do escocês, só se a volta a ver já no chão - os cameraman daquele tempo não estavam claramente preparados para lidar com tamanho belicismo.

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    1. Carlos, li o teu comentário com um sorriso de orelha a orelha.

      https://www.youtube.com/watch?v=FxDNewTtlXU Este golo fica nos anais da história! Desta selecção só me lembro do mítico guarda-redes Al Deaiea que esteve em 4 mundiais e do Sami Al-Jaber que acho que deve ter sido o melhor jogador de todos os tempos daquele país

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    2. Esse golo é maravilhoso. No replay percebe-se que o Al Owairan nunca fez puto ideia do que estava a fazer. A condução de bola é de quem fechou os olhos e vai empurrando a bola como dá, rezando para que todos se desviem do caminho. O que até faz sentido, estando o Preud'Homme na baliza - é como jogar Super Mário em modo conservador, sem ir à procura de moedas escondidas, só para guardar o máximo de vidas possível para o duelo com o boss final.

      Outra nota digna de realce relativamente a esta selecção é que era tão boa, tão boa que a Panini fez cromos de jogadores emparelhados, só para poupar espaço na caderneta. Apenas a Bolívia do Sanchez, do Etcheverry e do ancião Carlos Trucco foi contemplada com semelhante desconsideração.

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    3. https://www.youtube.com/watch?v=Tfv1hwJJCHU

      3:27. Dou por mim a pensar o que teria acontecido se em vez de ser o Bernal a cair ali tivesse sido um Zach Thornton... teria vindo barra, postes e bandeirolas de canto atrás.

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  6. Não consegui evitar ir espreitar ao Youtube os detalhes do vídeo da buja no McLeod, e eis que fui presenteado com estes saborosos nacos. Há poesia na buja, mas nenhum espaço para complacência. Alguém a lamentar o sucedido? Não. Só gáudio colectivo e salvas ao headshot. Foi no Itália 90 mas poderia ter sido no Coliseu de Roma.

    "Branco acerta um chute a sei lá quantos km por hora no jogador escocês Murdo MacLeod na Copa do Mundo de 1990 na Itália, nocauteando-o brutalmente. Muita gente acredita até hoje que ele morreu com um traumatismo craniano, mas, APARENTEMENTE, o cidadão continua vivinho da Silva."

    "o cara nunca mais vai senti esse lado do rosto."

    "mais forte q um soco do make taisol"

    "Hope it was sore ya Tory unionist prick."

    "esse ficou surdo"

    "só deu no coco... se nao matou ficou louco!!!"

    "ele só desmaio!!!"

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    1. LOL... Se fosse o Duncan MacLeod hoje em dia não existia Brasil, voltavam os índios e só havia amazónia para contar

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  7. Branco era um pontapé-canhão do mais fora-de-série que pode haver. Uma vez, num jogo contra o União da Madeira, a 35 metros da baliza, sensivelmente do mesmo local, marcou dois golos mandando dois pasteis super-sónicos ao ângulo! Primeiro meteu-a num dos ângulos, e minutos depois no outro! Com uma força incomensurável nos dois casos!

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